• Padre Leonardo Sales

Batalha é meu chamego

15 Dezembro, 2015 4:001 comentário 12 views
Foto: Reinaldo Torres.

Foto: Reinaldo Torres.

Hoje, minh’alma se ajoelha em prece, ao recordar com saudade o dia 15 de dezembro, aniversário do lugar síntese de histórias, tradições, sonhos e esperanças! Este lugar congrega em sílabas, um nome, que está para além da junção de consoantes e vogais; seu nome Batalha, sua idade? Não, se revela a idade das damas, se enamora a sua beleza e se encanta com seus traços sedutores!

Batalha é meu chamego! Desse pedaço de chão eu entendo, porque nesse barro eu fui moldado. Foi nesta cidade que desde cedo aprendi a respeitar e admirar seu povo, sua gente. Homens e mulheres simples, porém, guerreiros, altaneiros em generosidade, arte e rebeldia!

Escrever sobre este lugar, não se faz senão com a memória agradecida! Revisitar pessoas e fatos, “cantos e recantos” de ruas e vielas, ladeiras e riachos, desenhando no horizonte caminhos a serem percorridos.

É tentador assimilar o destino de um povo ao do indivíduo, com o seu nascimento, a sua adolescência, maturidade e declínio. Cada povo só é por se conceber e viver justamente como destino.

Assim, Batalha, te vejo como o solo de “gente simples”, e de ilibada honestidade; torrão de homens trabalhadores e mulheres abnegadas; chão de jovens que não temem o futuro qual, “sentinelas do amanhã”; cidade-moradia de anciãos que colecionam “histórias”; cidade da Fé, das tradições imorredouras; tu Batalha, desenhas no horizonte da memória a gratidão e canta às brumas da noite um hino de resistência, e o “passado dorme no teu chão”, como poetizou de forma grandiosa Nicodemos da Rocha!

Batalha das mangueiras saborosas; das conversas nas calçadas junto à parentela, na boca da noite, ao vento fresco que vem de longe; dos rios Longá e dos “Matos” a cortar “por fora” nossos limites territoriais, águas que tanto embalaram meus sonhos em tempo de cheias de inverno bom.

Terra de historiadores apaixonados como Milton Filho e Cleiton Amaral, ambos agora fazendo história no céu; dos poetas de inteligência inexplicável, como Nicodemos da Rocha e Dr. Carlos Magno; Batalha dos meus antepassados; dos Silvas sem importância; dos Calvalcantes, dos Fortes, dos Sales, dos Rochas, dos Nascimentos e tantos sobrenomes, para não citar os que nos envergonham!

Terra da música, dos mestres Fabiano, Quincas, Pantim e companheiros; Chão de Beatas de confiança nas contas do terço, a encher as novenas de cantos e lamentos! Do relojoeiro Aluísio Rocha, dependurado no velho relógio da matriz, a salvar as horas, com precários instrumentos e excessiva competência!

Do dentista autodidata Dominguinhos Castro, a aliviar dores terríveis de dentes, num consultório de precárias instalações e boa vontade de sobra, a qualquer hora do dia ou da noite! Terra dos mecânicos irmãos “Araújo” sujos de graxa a pernoitar debaixo dos carros, até tirar arranques de partida dos motores em falência!

Batalha, das artimanhas de Poraquê e Três Joelhos; com lábia afiada a pedir “trocados” ao Dr. Carlos Magno, para comprar uma pinga e a xingar com palavrões quem lhes insultasse a liberdade de beberem a hora que lhes conviesse!

Terra dos banhos de bicas e cachoeiras; das semanas santas que não voltam mais; dos bancos das praças; de sapucaieiras convidando com sua sombra ao sono após um guisado de bode; Batalha dos Cabarés, nas pontas de ruas, a desafiar a moral de famílias bem constituídas!

Terra de belos festejos a São Gonçalo, de devoções a Nossa Senhora de Lourdes; terra de galos de bom gogó a anunciar com seu canto as madrugadas quentes do verão escaldante; de bode assado na brasa, de baião e forró “pé de serra” bem tocado, gemido e chiado da sanfona de Bel Lima! Terra de bom futebol, de antigos clássicos “Atalanta X Figueirinha”.

Cidade de mulheres bonitas; de doces impecáveis; de assados de dar água na boca; de gente hospitaleira; de danças e bois- bumbás; de folguedos a encher o junho de Santo Antonio, São João e São Pedro, com quadrilhas, de cores e coreografias, aliadas a sorriso farto; torrão de festas e de simplicidade como o cheiro do café que sai do bule!

Terra de toques fúnebres, a deitar pelo vento a notícia: “aquele (a) que em vida se chamou”, anunciando a morte de mais um de seus filhos, Batalha, Terra de Lucimar Rocha, arauto evangélico com a sua “Voz da Pororoca”, saudando e declamando chova ou faça sol, pelas manhãs: “Bom dia Batalha, bom dia, meu Amor”!

Neste dia de comemorações para além de projetar um olhar para o passado, somos desafiados a ter olhos no futuro, sem descuidar do tempo presente, tão carente de verdade e de projetos para o teu povo! Pecado que clama aos céus, Batalha, é ver-te subjulgada nas mãos dos que mendigam admiração e se prostituem frente à sedução do poder.

Minha esperança é teimosa, não desisto! Batalha tu és maior, muito maior do que a sanha daqueles que tentam macular a sua imagem! Batalha menina e moça, mulher dos homens que nascem por aqui, nos te amamos! Se neste teu dia Batalha, faltar bolo e vela para os teus anos, não tenhas dúvidas nossas mãos calejadas de sofrimentos, porém abertas em gratidão, se unem em aplausos a cantar e felicitar: Parabéns, minha terra!

Pe. Leonardo de Sales.

1 comentários

  • Tânia Márcia

    Pe. Leonardo,eis uma bela homenagem! Empreender homenagens verdadeiras,que têm como atributo realçar esta terra querida,seus valores, sua história,evocando o desejo de vê-la sempre melhor, deve ser sempre motivo de aplausos e destaque frente a outras já tão estigmatizadas. Parabéns,abraços

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