• Padre Leonardo Sales

A cobra, Eva e o voto

16 Setembro, 2016 15:282 comments

pecadoEstou em Batalha. Já há muitos anos não acompanho in loco uma campanha eleitoral a nível municipal, ainda que meu interesse por esta questão seja grande, as datas nunca coincidiram, este ano, tenho a oportunidade de acompanhar, e como observador do cotidiano, não posso me furtar também à oportunidade de escrever sobre o que tenho observado.

Falo com muitas pessoas, dos diversos grupos e ideologias políticas e isto abre um leque de observação o mais diverso. Este é um tempo divertido para estar em Batalha, e o fato de morar fora me favorece ter um olhar amplo, para além do centro ou da periferia das questões locais.

Por alguns instantes, fechando os olhos me coloquei no lugar de um pai de família, amigo dos tempos de escola, ele têm três filhos pequenos, estar desempregado há alguns meses e numa conversa gostosa ao redor de um bule de café, com cheiro de gente simples, ele me disse que está sobrevivendo graças a alguns “bicos” que faz de vez em quando, e graças a sua esposa, uma mulher batalhadora, que trabalha incansavelmente 10 horas por dia fazendo faxina em residências. Ele é um homem de Fé, acorda todas as manhãs renovado, cheio de esperanças que hoje será o dia que ele vai conseguir arrumar finalmente um emprego e finalmente pode levantar a cabeça, deixar o desespero para trás e quem sabe melhorar a vida. Melhorar a vida não para ter uma televisão nova, mas para quem sabe, dar um futuro para os filhos.

Todavia, a dura e cruel realidade é implacável, não foi hoje que ele conseguiu trazer o pão para casa, mas amanhã quem sabe, o futuro a Deus pertence. Um destes dias bateu à sua porta, não era a felicidade, mas sim um conhecido, que normalmente mal o cumprimenta, jamais apareceu para jogar conversa fora ao redor de um bule de café, ou para dividir a sorte do meu amigo, agora como desempregado, mas desta vez o sujeito, turista de eleição, faz questão de apertar firme a sua mão e de chamá-lo de amigo. O conhecido que ostenta belas roupas e uma caminhonetona, não está sozinho, traz consigo um homem de cabelo bem penteado e diz que aquele senhor é seu candidato, que é honesto, que é isso, que é aquilo, que não vai esquecê-lo.

Assim como a cobra fez à Eva, o conhecido diz que se meu amigo votar nele, o dará 400 reais e se sua esposa também votar, o valor chegará a 800 reais. Ele olhou para dentro de casa, viu seus filhos descalços e lembrou que recentemente foi o aniversário de um deles e ele não pôde sequer dar um presente. Ele lembrou-se das contas atrasadas e da geladeira coco da praia, ou seja, cheia de água e nada mais. Lembrou-se de que a sua esposa vai trabalhar sempre com o mesmo calçado, pois esse é o único que ela tem. Agora vamos abrir os olhos. Diante dessa realidade em que vive o meu amigo, ou melhor, sobrevive esta família, que resposta você acha que aquele pai dará ao político satânico?

É claro que ele dirá sim. Nestas circunstâncias, não se pode culpar, muito menos condenar um pai que aceita a maça da cobra, pensando em seus filhos, em sua família e abrindo mão da sua arma poderosa, o voto. Eu mesmo no lugar desse pai, talvez aceitasse a proposta do conhecido canalha e aproveitador da miséria alheia, mas na hora de votar, votaria em outro candidato, um que realmente fosse honesto e competente e que não comprasse votos. Ou quem sabe, denunciaria todo o esquema e colocava esses bandidos na cadeia.

No Piauí, e na nossa cidade, tivemos na última eleição, um grande escândalo de compra de votos, que só não sabe quem não quis ver. Voto não tem preço, tem consequências! Infelizmente, parece que todo o esforço de organismos sérios deste país, que apostaram na ficha limpa e por ela lutaram estamos com raras exceções nos decepcionando, por interpretações isoladas aqui e ali, que comprometem a seriedade da Justiça eleitoral. Se meu amigo vendeu seu voto não sei, a decisão é de cada um, porém as consequências são de todos. Atitudes assim geram futuros fichas sujas e comprometem a futura fiscalização de nossos representantes nas diversas esferas do poder!

Regado ao conselho simples de minha avó e os justos que a precedeu: ”Não Roubarás”, ou “Devolva os lápis do coleguinha”, “Esse apontador não é seu, prefiro ficar ainda mais honesto!

Pe. Leonardo de Sales.

2 Comments

  • Tânia Marcia

    Bela e esclarecedora crônica!Apresenta as situações como realmente são,sem “os olhares da paixão”,mas pautada dentro da realidade de muitos.abraços

  • Odival Machado

    Pertinente e oportuno seu texto sr.Leonardo, existem relatos de candidato comprando votos de adolescentes de 16 anos, por r$ 20 reais, para a compra de entorpecentes.

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